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Tecnologias não conseguiram matar o radioamadorismo

 

20/03/05

Viktor Vidal - Repórter

O alto-falante de uma estação transmissora PS7 desejava boas vindas à equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE. A voz, oriunda do município de Garanhuns (PE), era do aposentado Arlindo Teixeira de Melo, 72 anos, radioamador há 31 anos. Poucos minutos de conversa foram o suficiente para criar uma relação de cumplicidade, respeito e (por que não?) amizade.

O diálogo aconteceu no dia 14 de março, no escritório do radioamador Joaquim Leopoldo de Souza. A sigla PS7 significa que a estação é no Rio Grande do Norte. Assim como apresentaram a estação à reportagem, a intenção dos radioamadores é mostrar à sociedade que, apesar das novas tecnologias de comunicação (internet, telefone celular e outros), o radioamador não morreu.

“O advento da internet e do celular criou um mito na cabeça das pessoas de que o rádio se acabou”, diz o radioamador Francisco Edvaldo Pereira de Freitas, presidente estadual da Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissores (Labre/RN). Ele informa que a idéia da liga em todo o País, neste ano, é difundir o radioamadorismo e atrair mais adeptos para a atividade.

Francisco Edvaldo explica que a internet não prejudicou o rádio. “Muito pelo contrário. Nós temos a informática como nossa aliada.” Atualmente, existem no Rio Grande do Norte cerca de 600 radioamadores. Eles se reúnem todos os domingos para trocar experiências e informações sobre a atividade. “São pessoas que têm o radioamadorismo como um hobby, uma paixão”, comenta.

Entre eles, presentes em todas as partes do mundo, os radioamadores conversam sobre equipamentos, antenas, clima, tempo e prestação de serviço. “Somos uma grande família, unida no mundo inteiro, de amizade fraterna e sincera. Não existe entre nós diferença de cor, raça ou política”, relatou à reportagem, via rádio, o radioamador natalense João Bosco Menezes de Oliveira, 54 anos - 30 de rádio.

Apaixonado por radioamadorismo, João Bosco contou que a atividade o atrai desde criança. “Eu escutava um radioamador que vazava no meu rádio e cresci querendo ser um radioamador”, recordou. Ele se orgulha de “poder servir a toda hora, em qualquer tempo, o bem da comunidade.” Essa é uma das mais importantes funções do radioamadorismo: prestar serviços de urgência à comunidade.

Francisco Edvaldo citou o exemplo de quando a barragem de Santa Cruz rompeu, no início da década de 80, provocando uma catástrofe na cidade. “Os radioamadores foram o principal meio de comunicação na ajuda de socorro às vítimas. Os outros meios de comunicação estavam todos cortados”, lembrou Francisco Edvaldo. O serviço, inclusive, é autorizado pelo Ministério da Integração, através de uma portaria que instituiu em 2002 a Rede Nacional de Emergência de Rádio Amadores.

A maioria das estações é montada em casa ou no carro. Existem, no radioamadorismo, quatro classes que designam os radioamadores: “D”, “C”, “B” e “A”. Para ser um radioamador, o interessado deve se submeter a um curso e, posteriormente, a uma prova da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Na classe “D”, para principiantes, é preciso ter uma estação de transmissão e uma antena.

Os contatos de longa distância

Dentro do radioamadorismo, uma das funções que mais atrai os praticantes é o contato de longa distância. Radioamadores de todo o mundo trocam informações e se correspondem através de cartões personalizados. Uma vez estabelecido o contato via rádio, o receptor tem como dever ético enviar um cartão ao interlocutor e vice-versa. É a confirmação do contato.

 

Alex Régis

RADIOAMADOR - Joaquim Souza prefere as longas distâncias

O radioamador Joaquim Leopoldo de Souza, com 28 anos de atividade em Natal, já recebeu a confirmação de 220 países. Ele coleciona os cartões como relíquia. Ele explica que o contato de longa distância geralmente é curto, com pouca palavras. A língua universal é o inglês. “Mas às vezes a gente se surpreende e encontra japonês falando português”, comenta.

Ainda falta muito para Joaquim Leopoldo conquistar cartões dos 324 países que compõem o mundo do radioamadorismo. Mas diz que não vai desistir. Ele lembra que os contatos mais difíceis até hoje foram com Mongólia e Austrália. “Deu trabalho, mas eu consegui. Espero agora receber a confirmação de outros países”, revela.

Na sua casa, Joaquim Lelpoldo tem instalada uma antena de longo alcance, além das estações de transmissão de grande potência. Isso facilita chegar aos rádios mais longe. Os cartões personalizados, trocados através de cada contato, servem como uma espécie de currículo para que os radioamadores conquistem diplomas da atividade.
 

Serviço de radioamador está regular

O serviço de radioamador no Brasil foi considerado clandestino até o dia 5 de novembro de 1924. Foi quando o Diário Oficial da União publicou o decreto nº 17.657, regulamentando as estações de radioamadores existentes no País. Atualmente, a prática está regulamentada por uma portaria do Ministério das Comunicações.

O objetivo da portaria é estabelecer a comunicação destinada ao conhecimento próprio, a investigação técnica, executada por amadores devidamente autorizados, interessados na rádio-técnica, que não visam objetivo comercial. Em 5 de novembro é comemorado o Dia do Radioamador Brasileiro.

Os radioamadores brasileiros têm como patrono o padre brasileiro Roberto Landell de Moura. Simultaneamente ao seu ministério sacerdotal, ele se dedicava aos estudos científicos. Entre 1893 e 1894, vindo de Campinas, Landell de Moura apareceu em São Paulo com um misterioso embrulho em que trazia as peças de um aparelho de sua invenção e fabricação, com o qual poderia falar, sem utilizar fios, com outra pessoa a quilômetros de distância.

A reação popular taxou-o de impostor, mistificador, louco, bruxo, padre renegado, herege. A porta da sua casa foi arrombada e seu laboratório, todos os seus aparelhos e suas “máquinas infernais” foram destruídos. Reconstruindo sua oficina, o padre conseguiu obter a patente brasileira nº 3.279 para um aparelho de transmissão de palavras à distancia, com ou sem fio.

Em 11 de outubro de 1904, nos Estados Unidos, conseguiu a patente do transmissor de ondas e em 22 de novembro a do telefone sem fio e do telégrafo sem fio. De volta ao Brasil para entregar a seu invento ao governo brasileiro, pediu dois navios para fazer experiências em alto mar, sendo negado, mandado aguardar outra oportunidade, quando mais uma vez foi chamado de louco. Landell queria fazer suas experiências com um navio de guerra na Guanabara e outro em alto mar. O padre morreu aos 77 anos, em 1928.

Serviço - Mais informações sobre a atividade através da Labre: telefone 3086-2140.

 

Fonte: Jornal Tribuna do Norte